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O Sorveteiro (2026)

  • Diego Nicolau
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura



O Sorveteiro é um daqueles filmes que terminam e deixam uma pergunta difícil de responder: afinal, o que ele queria ser? Ao longo de 86 minutos, o longa aposta em violência, gore e choque como seus principais recursos, mas nunca consegue transformar esses elementos em uma experiência que vá além do impacto imediato.

O problema não é a quantidade de sangue ou o nível de violência. O terror pode funcionar justamente a partir do excesso. O problema é quando não há uma história, personagens ou uma proposta suficientemente bem construída para sustentar esse excesso.

O problema não está no fato de o filme ser violento. O terror sempre encontrou diferentes maneiras de trabalhar com o grotesco, e o gore pode ser uma ferramenta narrativa tão válida quanto qualquer outra.

A questão é o que existe por trás dele. Em O Sorveteiro, a violência raramente parece contribuir para a construção da história ou dos personagens. Ela simplesmente está ali.

E isso torna a experiência particularmente difícil de acompanhar.


O roteiro não apresenta personagens capazes de despertar interesse, tampouco desenvolve uma tensão que faça com que o espectador queira descobrir o que acontecerá em seguida. Os acontecimentos se sucedem, mas raramente parecem consequência uns dos outros. A sensação é de que o filme está mais preocupado em chegar à próxima cena de violência do que em construir um caminho até ela.


É nesse ponto que a comparação com Terrifier se torna inevitável.

Não sou fã da franquia. Em muitos momentos, considero que os filmes de Terrifier colocam o gore acima do próprio desenvolvimento narrativo e prolongam determinadas cenas além do necessário. Ainda assim, existe uma diferença fundamental: Terrifier entende sua própria proposta.

Art, o Palhaço, a estética, o humor macabro e o nível de violência fazem parte de uma identidade muito bem definida. É possível não gostar do que a franquia oferece, mas existe uma coerência entre seus diferentes elementos. O exagero é justamente parte da experiência que os filmes querem proporcionar.


O Sorveteiro parece não ter essa mesma clareza.

O longa mistura violência, humor, efeitos visuais e elementos de terror sem encontrar uma linguagem própria. As ideias aparecem, mas raramente se conectam de maneira orgânica. Em vez de construir uma atmosfera, o filme parece acumular recursos do gênero na esperança de que, juntos, eles produzam impacto.

Não produzem.


O problema fica ainda mais evidente quando a violência deveria ser o grande diferencial da produção. Para que uma cena de gore funcione, ela precisa provocar alguma reação. Pode ser repulsa, tensão, choque ou até mesmo uma sensação de absurdo. Aqui, porém, muitas mortes acabam sendo tão desconectadas do restante da narrativa que pouco significam além do momento em que acontecem.


O espectador vê a cena, registra o que aconteceu e segue em frente.

Não há consequência emocional.


Essa falta de impacto também aparece nos aspectos visuais. A maquiagem e os efeitos digitais, que deveriam ajudar a criar a atmosfera do filme, em diversos momentos acabam evidenciando suas limitações.


E isso é especialmente prejudicial para um filme que depende tanto da imagem.

Quando a história é simples e a narrativa aposta fortemente no terror visual, a direção precisa encontrar outras maneiras de criar tensão e atmosfera. O enquadramento, o ritmo, a iluminação, o som e a construção das cenas precisam trabalhar juntos.


O Sorveteiro raramente consegue transformar esses recursos em algo que permaneça na memório.

No fim, o problema do filme não é ser exagerado. É não saber o que fazer com o próprio exagero.


Há uma tentativa clara de construir uma experiência extrema, mas falta uma história que dê sentido à violência, personagens que façam o público se importar com o que acontece e uma identidade visual e narrativa capaz de diferenciar o filme dentro de um gênero já tão acostumado ao excesso.


Terrifier pode ser uma experiência cansativa e desagradável — inclusive para mim —, mas existe uma intenção clara por trás de sua proposta. O Sorveteiro, por outro lado, parece passar boa parte de sua duração procurando essa intenção.


E há ainda um aspecto que sequer merece uma análise mais extensa: o uso de inteligência artificial em diferentes momentos da produção. Por si só, a escolha já é questionável, mas, em um filme que apresenta tantos problemas de identidade e execução, a utilização da ferramenta apenas reforça a sensação de um trabalho feito sem o devido cuidado.

O mais difícil de compreender, no entanto, é que O Sorveteiro não surge de um diretor estreante tentando fazer sua primeira obra. É mais um trabalho dentro de uma filmografia que continua recebendo financiamento e espaço para produzir. E, diante disso, fica difícil não questionar até quando os estúdios continuarão colocando recursos nas mãos de um cineasta que entrega resultados tão pouco inspirados.

Se este é o nível de produção que ele pretende oferecer trabalho após trabalho, talvez o problema já não esteja apenas no filme, mas em quem continua acreditando que o próximo será diferente.



 
 
 

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