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Corrida dos Bichos (2026)

  • Diego Nicolau
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Corrida dos Bichos talvez seja um dos casos mais frustrantes de uma boa ideia no cinema brasileiro recente.


Porque existe muita coisa aqui que eu realmente gosto. Um Brasil distópico, um Rio de Janeiro devastado, desigualdade social levada ao extremo e o jogo do bicho transformado em um espetáculo de sobrevivência para a elite. É uma premissa muito brasileira e, justamente por isso, muito interessante.

O problema é que o filme cria um universo maior do que consegue desenvolver. Em um Rio de Janeiro distópico, o jogo do bicho evoluiu para uma corrida mortal onde os competidores usam seus entes queridos como garantia, que só são resgatados pelos vencedores. O jovem idealista Mano é forçado a entrar nessa disputa de vida ou morte quando sua irmã se torna uma dessas garantias. Para salvá-la, ele deve confrontar seus princípios, formar alianças improváveis e lutar não apenas para vencer, mas para destruir o jogo opressor de uma vez por todas.

Enquanto eu assistia, fiquei com a sensação de que essa história talvez funcionasse muito melhor como uma série. São muitos personagens, muitos conflitos, muitas informações sobre esse mundo e várias histórias paralelas que parecem estar preparando alguma coisa que nunca chega a ser desenvolvida de verdade.


Tem personagem que simplesmente desaparece. Tem personagem que aparece machucado e você espera que aquilo tenha alguma explicação, mas a explicação nunca vem. Existem grupos, relações e elementos desse universo que parecem importantes, mas acabam ficando pelo caminho.


E isso prejudica justamente aquilo que o filme tem de mais interessante: o próprio mundo.


A crítica social também acaba sendo mais sugerida do que aprofundada. O filme fala sobre desigualdade, exploração, dinheiro, entretenimento e a transformação da miséria em espetáculo, mas muitas dessas ideias poderiam ter sido muito mais exploradas.


Tecnicamente, porém, existe bastante coisa para elogiar. As cenas da corrida funcionam. O parkour dá uma identidade visual interessante para a ação, e alguns momentos são realmente muito bons visualmente. É quando o filme simplesmente deixa a corrida acontecer que Corrida dos Bichos mais funciona.


O roteiro, infelizmente, não acompanha essa potência.


E aí chegamos às atuações e aos diálogos. A personagem da Anitta é um dos maiores problemas para mim. Não acho que seja simplesmente uma questão de ela estar no elenco. O problema é o texto que deram para ela. As gírias parecem artificiais, algumas falas são extremamente expositivas e existe uma tentativa tão evidente de fazer a personagem soar “jovem e brasileira” que acaba ficando artificial.


É o tipo de diálogo que tira você da história em vez de colocar você dentro dela.


E é uma pena, porque Corrida dos Bichos tinha potencial para ser uma grande distopia brasileira. O cinema brasileiro raramente se aventura nesse território, e quando finalmente aparece uma produção com dinheiro, escala e uma ideia tão brasileira, eu queria muito que ela tivesse ido mais longe.


No fim, o que mais me incomoda não é o filme ser ruim. É ele poderia ter sido muito melhor.


A sensação que fica é a de assistir ao primeiro capítulo de uma história enorme que precisou caber em duas horas.


A ideia é ótima. O universo é interessante. A execução deixa a desejar.

 
 
 

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