Backrooms: Um Não-Lugar
- Diego Nicolau
- há 2 horas
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Transformar Backrooms em um longa-metragem parecia uma ideia bem dificil de ser adaptada. A creepypasta criada por Kane Parsons sempre funcionou justamente por sua simplicidade: vídeos curtos, estética found footage e a sensação de estar observando algo que jamais deveria existir. O terror vinha do vazio, da repetição, da ausência de respostas. Existia uma dúvida inevitável sobre até onde esse conceito conseguiria ir sem perder sua força.

A surpresa é que, durante boa parte do tempo, o filme encontra maneiras muito inteligentes de sustentar essa atmosfera.
Kane Parsons demonstra um domínio absurdo de linguagem visual. Mesmo em seu primeiro longa, existe uma confiança impressionante na forma como ele constrói desconforto. Cada corredor parece artificial demais para ser real e familiar demais para ser ignorado. As luzes fluorescentes, os espaços infinitos e a maneira como a câmera observa aquele ambiente criam uma sensação de isolamento. O filme entende perfeitamente que o verdadeiro horror das Backrooms não está apenas em monstros ou sustos, mas na ideia de existir preso em um lugar que desafia qualquer lógica humana.
Visualmente, o longa é extremamente eficiente. Parsons transforma os espaços em algo ameaçador com uma precisão rara. Existe uma frieza na direção, como se cada cena tivesse sido construída para desgastar o espectador pouco a pouco. E isso funciona muito bem.
As atuações de Renate Reinsve e Chiwetel Ejiofor ajudam a ancorar emocionalmente essa experiência. Os dois conseguem trazer humanidade para um universo que poderia facilmente soar distante ou vazio demais. Principalmente porque o filme depende muito mais da reação emocional dos personagens ao espaço do que necessariamente de diálogos ou grandes acontecimentos.
Mas é justamente quando Backrooms tenta explicar mais do que deveria que ele começa a perder força.
O maior problema do filme está na necessidade de concretizar parte do mistério, especialmente envolvendo a criatura. Enquanto o horror permanece abstrato, o longa é perturbador de verdade. Existe tensão em cada canto vazio do cenário. Porém, no momento em que o desconhecido ganha forma definida, parte do medo desaparece junto. O filme perde exatamente aquilo que tornava sua proposta tão única: a sensação constante de não compreensão.
Além disso, o roteiro nunca encontra uma narrativa tão forte quanto sua ambientação. Em muitos momentos, parece que a ideia central era adaptar o fenômeno das Backrooms para o cinema e depois construir uma história ao redor disso. Só que essa trama raramente alcança o mesmo impacto da experiência visual e psicológica. O universo é fascinante, mas os conflitos dramáticos não possuem a mesma profundidade.
Ainda assim, seria injusto reduzir Backrooms aos seus problemas narrativos. O filme funciona muito mais como experiência sensorial do que como terror tradicional. Kane Parsons prova que entende profundamente a estética liminal que transformou sua criação em um fenômeno da internet e, mais importante, mostra um talento visual gigantesco para o gênero.
Mesmo quando tropeça, Backrooms permanece inquietante. É um filme que talvez não consiga sustentar completamente sua própria mitologia, mas acerta em cheio naquilo que realmente importa: fazer o espectador sentir que entrou em um lugar onde a realidade parece ter apodrecido silenciosamente.





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