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Digger (2026)

Diego Nicolau
há 24 minutos
4 min de leitura

Alejandro González Iñárritu retorna com Digger, uma sátira ambiental estrelada por Tom Cruise, que interpreta Digger Rockwell, um excêntrico magnata do petróleo responsável por uma catástrofe ambiental que pode colocar o futuro da humanidade em risco. Quando a situação sai completamente do controle, Digger parte em uma corrida para tentar salvar o mundo da própria destruição que ajudou a provocar.

E a premissa já entrega o principal alvo do filme: a maneira como homens extremamente poderosos conseguem transformar responsabilidade em espetáculo e culpa em protagonismo.


Digger fala de crise climática, petróleo, bilionários, política, poder e da forma como aqueles que estão no centro desses problemas também podem tentar se colocar como os grandes responsáveis por solucioná-los.


A sátira é propositalmente exagerada. Os personagens são caricatos, as situações são absurdas e Tom Cruise transforma Digger em uma figura completamente egocêntrica e grotesca.


Iñárritu não parece interessado em fazer uma crítica ambiental realista ou particularmente sutil. Ele transforma tudo em um grande espetáculo apocalíptico, usando o absurdo para falar de coisas que, na vida real, são bastante concretas.


O problema é que, depois de um começo muito forte, essa escolha começa a cobrar seu preço.


Existe uma quantidade enorme de ideias, discursos, personagens e conceitos sendo colocados na tela, mas o roteiro nem sempre sabe o que fazer com tudo isso.


E aqui está a minha principal questão com Digger: às vezes ele quer tanto parecer inteligente que acaba sendo vazio.


Eu entendo completamente o que o filme está tentando criticar. Entendo a sátira aos bilionários, ao governo, à indústria do petróleo e à forma como o poder transforma até uma catástrofe em espetáculo.


Mas apontar para esses problemas não significa necessariamente aprofundá-los.


Em vários momentos, a crítica parece funcionar no nível mais básico: os poderosos são ruins, o governo é ruim, os interesses econômicos são ruins.


Beleza.

Mas e depois?


É justamente nessa segunda camada que eu sinto que Digger poderia ter ido muito mais longe.


E isso também afeta os personagens. Eu acho que Tom Cruise está muito bem dentro da proposta. Digger é praticamente uma desconstrução da imagem que o próprio Cruise construiu durante décadas. Ele está acostumado a interpretar o homem que corre, luta e salva o mundo. Aqui, ele interpreta justamente um sujeito poderoso, egocêntrico e desesperado para controlar uma situação que ele mesmo ajudou a criar.


É uma atuação extremamente caricata, mas existe uma intenção clara nessa caricatura.

John Goodman também funciona muito bem dentro desse universo, e existem momentos pontuais em que os dois conseguem extrair bastante da proposta do filme.


Só que praticamente todo mundo está operando nesse mesmo registro exagerado.

E quando todo mundo é caricatura, em determinados momentos a caricatura perde um pouco da força.


Visualmente, porém, Digger é um filme enorme. Iñárritu trabalha essa história como um espetáculo, e existe uma escala muito grande na maneira como a catástrofe é apresentada.


Só que essa grandiosidade também contribui para a sensação de cansaço. Tudo é muito grande. Muito barulhento. Muito explicado. Muito consciente de si mesmo.

E, em alguns momentos, eu queria simplesmente que o filme respirasse.

Porque quando ele faz isso, funciona muito.


O começo é muito bom. Ele estabelece rapidamente o universo, apresenta Digger e deixa claro o tipo de sátira que estamos prestes a acompanhar.


E o final, para mim, é absurdamente bom.


Sem entrar em spoiler, é justamente quando o filme consegue organizar algumas das ideias que vinha apresentando e transformar a experiência em algo muito mais interessante.


Mas ainda assim, eu saí do filme muito confuso sobre o que eu realmente achei dele.


E isso é algo que eu acho importante colocar aqui: eu ainda não sei se gostei de Digger o suficiente para colocar esse filme no meu Top 5, ou se gostei pouco o bastante para simplesmente deixá-lo naquele limbo dos filmes medianos.


Eu realmente não sei.


E talvez seja justamente porque existem momentos em que eu acho o filme muito bom e outros em que eu acho ele extremamente cansativo.


O começo me ganhou. O final me ganhou.

Algumas escolhas de atuação me ganharam.

A sátira funciona em vários momentos.


Mas o meio me perdeu diversas vezes.


E eu acho que essa sensação é consequência direta de um filme que tenta abraçar ideias demais ao mesmo tempo. Ele quer ser uma sátira política, uma crítica ambiental, uma história sobre poder, uma comédia absurda, um espetáculo apocalíptico e ainda brincar com a própria construção cinematográfica.


Tem momentos em que essa mistura funciona muito bem. Em outros, parece que o filme está simplesmente acumulando camadas porque pode.

E aí volto para aquela questão: eu entendi o filme. Só não sei ainda se gostei dele.


Talvez eu precise de mais tempo para descobrir onde Digger vai ficar na minha cabeça.

Porque eu não consigo chamar de ruim. Tem coisas aqui que eu acho realmente excelentes.


Mas também não consigo sair dizendo que é um dos melhores do ano, porque a experiência de assistir foi muito mais cansativa do que eu esperava.


No fim, Digger ficou para mim nesse lugar estranho entre a admiração e a frustração.


Eu admiro a ambição. Admiro algumas das escolhas. Admiro a coragem de fazer uma sátira tão exagerada e colocar Tom Cruise dentro dela.

Mas queria que o filme fosse tão profundo quanto ele parece acreditar que é.

E talvez seja exatamente isso que ainda esteja me deixando tão confuso sobre ele.


Eu não sei se acabei de assistir a um dos filmes mais interessantes do ano ou a um filme que só parece muito inteligente.



 
 
 

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